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"Meia-noite em Paris" e o apego ao passado e à alteridade

Depois de cometer o pecado imperdoável de não assistir ao mais recente filme do Woody Allen enquanto ainda estava em cartaz (daqui a pouco cometo o mesmo erro com o novo do Almodóvar), me redimi parcialmente assistindo à “Meia-noite em Paris” em casa. Quem já viu, conhece a história – e quem não viu, vá ver, porque é maravilhoso e eu não vou escrever uma sinopse.

Continuando, o filme é lindo, Paris é linda, Owen Wilson mandou muito bem e o Woody Allen finalmente conseguiu diluir a nuvenzinha preta de paranoia que sempre paira sobre a cabeça de seus protagonistas (e que já estava gasta há alguns filmes). O sentimento que permeia esse filme (acompanhado do medo da morte, sempre presente no universo woodyalleniano) é a nostalgia, o apego a um passado não necessariamente vivido, mas apenas idealizado.

O protagonista entra numa espiral digna do clássico oitentista “De Volta Para o Futuro”, motivada, de certa forma, por sua idealização de uma Paris em que, de forma mágica, todas as artes viveram seu auge simultaneamente (para quem quiser jogar um pouco mais de luz sobre essa época, a Paris dos anos 1920, recomendo a leitura de “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein, que também é “personagem” do filme e cujo livro provavelmente deve ter inspirado o Sr. Allen). Quem não iria querer presenciar um momento da Humanidade em que as vidas e as criações de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Henri Matisse, Man Ray, Ernest Hemingway, F.Scott Fitzgerald, Cole Porter e Coco Chanel – só para mencionar alguns – se tangenciaram e conviveram de forma simultânea, formando uma massa de energia criativa cujo impacto sentimos até hoje?

Mas a bandeira mais realista que o filme levanta (afinal, o que há de realista em viajar ao passado e cair no meio de uma festinha do Jean Cocteau?) é a de que, por mais que se busque a perfeição do passado (no filme essa busca se dá pela arte), sempre estaremos presos ao presente. Não há máquina do tempo que possa fazer com que uma pessoa se sinta à vontade em um tempo que não é o seu, não importando o quanto o zeitgeist do passado combine mais com seu caráter e suas crenças. Ou, como diria o personagem principal de “Meia-noite em Paris”, “essas pessoas (do passado) não têm antibióticos”. Quem, afinal, iria querer viver em um mundo sem antibióticos?

Sem entrar muito na história do filme (e estragar o prazer de quem ainda não o assistiu), a reflexão que me sobrou encontra um paralelo na minha relação com o Rio de Janeiro. O passado parece muito bom até o momento em que você se dá conta de que, para estar lá, teria de abrir mão de tudo o que pertence ao tempo atual (e isso não se restringe aos avanços tecnológicos – isso afeta relações, vínculos afetivos). Trouxe o Rio para o meio dessa conversa porque, até conviver mais de perto com a visão que pessoas de fora têm da cidade, sempre pensei em como a vida seria melhor se eu vivesse em qualquer outro lugar que não fosse aqui.

De fato, quando um termômetro de rua registra 40° C no verão eu realmente me pego querendo me mudar para uma província gelada no Canadá, mas aprendi uma lição preciosa nos últimos tempos que tem servido bem ao meu propósito de viver uma vida de confortos e prazeres simples. Passei a ver a cidade com um olhar um pouco estrangeiro, uma mescla do cinismo que é essencial a todo carioca com uma dose de inocência que me permite enxergar o lado leve e bonito da cidade, seus pequenos luxos diários que não custam absolutamente nada e que tiram um pouco do peso de se viver numa metrópole suja, barulhenta e pobre de atitudes cidadãs. É como um relacionamento – você ama aquele sujeito, mas há momentos em que tudo o que você queria era jogá-lo na linha do metrô. Aí você lembra das pequenas atitudes que te trazem um sorriso nos momentos ruins e a vida parece um pouco melhor. Aposto que os parisienses devem pensar a mesma coisa.

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