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“Songs of Innocence” e o retorno à Dublin

Dublin é um lugar que me provoca reações e emoções distintas. Comecei a pensar obsessivamente na cidade ainda pré-adolescente, ao me juntar à legião de fanáticos pela banda mais famosa a surgir por aquelas terras, o U2, e nunca olhar para trás. Que lugar incrível seria esse que teria inspirado quatro meninos de 15 e 16 anos a se jogar de cabeça em uma carreira musical sem pensar se daria certo ou não? (Deu certo, caso ninguém tenha percebido.) A história deles ecoava os meus próprios sonhos artístico-musicais (nunca realizados) e eu imaginava se, com aquela idade, encontraria outras almas inquietas que dividissem minha paixão musical (só encontrei uma, que se tornou minha melhor amiga na adolescência).

Minha história com o U2 é longa, passional, com alguns altos e baixos e muitos momentos em que a música foi minha única companhia, ou a única salvação contra o abismo da insanidade. Suas letras se tornaram minhas orações, suas preocupações se tornaram as minhas preocupações, e sua visão do mundo informou a minha. Eu devo parte considerável do meu código moral e da minha fé à banda, o que não é pouco, visto que desisti muito cedo de seguir quaisquer tipos de dogma religioso (sem nunca abrir mão da minha crença deísta). Então, qualquer novo álbum da banda me encontra em expectativa, com um misto de empolgação e medo, a medida que o tempo passa e vai ficando mais cruel com os meus ídolos.

Porém, com o novo álbum da banda, Songs of Innocence, lançado de surpresa (e em um baita golpe de marketing) em 8 de setembro, eu não tive tempo de sentir muita coisa de antemão. Sabia que a banda estava há alguns anos trabalhando no sucessor do belo e subestimado No Line on the Horizon, mas os adiamentos recorrentes me tiraram um pouco da esperança de ouvir algo novo ainda este ano (a igualmente bela e subestimada ‘Ordinary Love’, escrita para a trilha sonora do filme Mandela e esnobada no Oscar deste ano, me arrebatou, e cheguei a imaginar que ela estivesse apontando uma nova direção para o som da banda).

Refiz-me do susto de saber que o novo álbum estaria disponível, de graça, nos meus apetrechos da Apple, respirei fundo, esperei a excitação passar e escutei Songs of Innocence na íntegra enquanto trabalhava em uma revisão (erro número 1). O álbum tocou ao fundo e nada me chamou a atenção. Não gostei das primeiras faixas, e perdi o entusiasmo de buscar algo de positivo nas faixas que restavam (erro número 2).

Não toquei o álbum novamente por mais algumas semanas, pois estava convencida de que o havia odiado. Passarei a chamar esse fenômeno de Síndrome de Pop. Deixe-me explicar: Pop é um álbum lançado pelo U2 no longínquo ano de 1997, sucedendo o esplêndido, magnífico Achtung, Baby (uma obra de arte sonora, sem exagero), de 1991, e o experimental Zooropa (que é um manancial de hits da banda, como ‘Lemon’ e ‘Stay (Faraway, So Close)’), de 1993. Ao ouvir Pop pela primeira vez, assim que foi lançado, odiei o álbum com todas as minhas forças e decretei: é o fim do U2. Eles perderam o mojo. Eles não conseguem mais fazer um grande álbum.

Aqui, preciso me dar um desconto por dois motivos:  1 – eu só tinha 15 anos, e 2 – eu não entendia nada de música (mas achava que entendia, com a empáfia que cabe a uma adolescente). Ainda bem que minha paixão pela banda era maior do que a descrença, então, ao longo dos anos (e mesmo no ano seguinte, em que eles vieram pela primeira vez ao Brasil e eu assisti ao meu primeiro show) eu nunca desisti de Pop. Sempre soube que, em algum momento, quando eu menos esperasse, descobriria que aquele era um álbum incrível, uma pequena obra prima em seu jeito peculiar.

Isso acabou acontecendo em algum momento ainda na primeira década dos anos 2000, quando o U2 tripudiou meu coração de fã e lançou um álbum que eu ainda acho que deveria (com a exceção de três faixas – ‘New York’, ‘Beautiful Day’ e ‘Walk On’) ser abolido da discografia oficial da banda (não só por ser um álbum medíocre, mas por trazer aquele atentado à minha audição, ‘Elevation’), All That You Can’t Leave Behind, seguido de outro que, apesar de alguns ótimos momentos, acaba morrendo na praia, How to Dismantle an Atomic Bomb, lançado em 2005.

A redenção parcial, para mim, veio em 2009, com No Line on the Horizon, um álbum um pouco confuso, por não ter uma temática coesa, mas com canções que, isoladamente ou em pares (como a sequência ‘Unknown Caller’/ ‘Moment of Surrender’), comprovam que a banda ainda não havia perdido sua essência nem sua capacidade de criar músicas belas, grandiosas e impactantes (me desculpem, mas quem não se emociona escutando ‘Magnificent’ ou ‘White as Snow’ não tem coração). Digo redenção parcial pois, desde o fim da turnê de Pop, Bono insistia no discurso de que, no próximo trabalho, a banda voltaria às raízes roqueiras e faria um álbum “back to basics”, no melhor estilo Boy (o primeiro disco da banda, de 1980), e essa promessa nunca havia se cumprido de fato.

A insistência de Bono sempre me deixou com a impressão de que ele temia que a banda tivesse perdido sua força e sua sinceridade – pior ainda, sua relevância. Envolvido em ações humanitárias grandiosas desde os anos 1980, Bono, na última década e meia, tem sido muito mais um embaixador da boa vontade entre os povos do que, propriamente, um rock star, e isso claramente afetou a capacidade da banda de criar álbuns que fizessem jus à sua história. Com os intervalos cada vez maiores entre cada álbum, parecia que, de fato, desta vez, o U2 teria perdido seu mojo.

Foi com toda essa carga que eu escutei Songs of Innocence e o descartei como um esforço fracassado e infrutífero de uma banda que já não sabia mais qual era o seu lugar no panteão dos grandes (erro número 3). Mas, se o tempo ensina algo, é que é preciso ser paciente. Eu me conheço razoavelmente bem e conheço o U2 e minha história com sua música muito bem, então sabia que precisava esperar.

Foi isso que eu fiz, até a banda anunciar a venda de ingressos para sua turnê em 2015 (com shows nos EUA, Canadá e Europa, e boatos de shows na América Latina). Aqui, eu enxerguei a possibilidade de realizar um desejo muito antigo – ver um show da banda em Berlim, meu lugar preferido no mundo e cidade que inspirou meu álbum preferido da banda, Achtung, Baby. Depois de me acovardar algumas vezes e perder a primeira oportunidade de comprar ingressos, não titubeei quando a banda anunciou datas extras e, munida de meu código de pré-venda (sou assinante do site oficial da banda), comprei meu ingresso para assistir ao U2 em Berlin em setembro de 2015.

A emoção e a expectativa de poder realizar um sonho adolescente me colocaram no lugar e no humor certos para dar uma segunda chance a Songs of Innocence. Além disso, ainda na mesma semana, a banda lançou clipes feitos por artistas de diversas partes do mundo para algumas faixas do novo álbum, e um deles em particular me chamou a atenção (o clipe em questão é da música ‘Iris (Hold Me Close)’. Todos os clipes ficaram disponíveis por apenas 24 horas, antes de serem lançados em formato pago no iTunes).

E foi assim que Songs of Innocence me conquistou. O álbum é enxuto (são apenas 11 faixas), como todos os outros trabalhos da banda, despretensioso e particularmente honesto em sua abordagem de temas muito caros à banda. Nenhuma faixa faz muito mistério sobre seu significado – são canções sobre a adolescência em Dublin, a descoberta do punk (mais especificamente, Ramones e The Clash, duas das bandas preferidas de Bono e The Edge), do sexo e do amor, perdas (‘Iris’ é a primeira música em quase 40 anos de banda em que Bono cita nominalmente sua mãe, morta quando ele tinha 14 anos), terrorismo (‘Raised by Wolves’ fala sobre um atentado à bomba em Dublin do qual Bono escapou por sorte), família, amizade, religião, crise de fé, a passagem do tempo e como ela nos afasta daquilo que nos dá nossa essência – um tema recorrente em algumas faixas é o distanciamento espiritual e afetivo do lugar onde nascemos e crescemos, por mais que estejamos fisicamente ainda próximos.

O álbum tem destaques óbvios (as já mencionadas ‘Iris’ e ‘Raised by Wolves’, ‘Volcano’ e a excelente ‘This is Where You Can Reach Me Now’, uma homenagem enérgica e empolgante a um dos maiores ídolos de Bono – e meu também -, Joe Strummer, morto há 12 anos, com uma linha de baixo matadora, como há tempos o Adam Clayton não criava), além das músicas que a banda lançou com mais fanfarra, como a primeira faixa do álbum, ‘The Miracle (of Joey Ramone)’ e ‘Every Breaking Wave’, mas algumas pérolas podem passar despercebidas em uma audição mais apressada, como ‘Cedarwood Road’ (em que Bono descreve, com riqueza de detalhes, as agruras de sua adolescência punk em uma vizinhança conservadora em Dublin), ‘Sleep Like a Baby Tonight’ (um conto macabro sobre pedofilia na Igreja Católica disfarçado de canção de ninar) e a última faixa do álbum, ‘The Troubles’, que poderia ter pelo menos mais 20 segundos no final e, apesar de ecoar os sentimentos e parte da temática de outra faixa de encerramento de álbum, a linda, obscura e sombria ‘Love is Blindness’, do Achtung, Baby, me parece ser um desabafo de Bono sobre o peso da fama.

Em suma, Songs of Innocence consegue o que os esforços de 2000 e 2005 tentaram (sem sucesso). É um álbum de retorno às raízes, em que o U2 troca temas globais por um olhar mais doméstico, para a cidade que inspirou seus esforços criativos e criou a lenda de uma banda saída de um subúrbio para dominar o cenário musical mundial pelos últimos 30 anos. Com Songs of Innocence, novos fãs poderão entender como Dublin influenciou o U2, e fãs mais antigos conseguirão escutar os ecos dos dois primeiros álbuns da banda, dos sons e dos temas que aqueles quatro meninos imberbes que mal tinham atingido a maioridade colocavam com tanta paixão e sinceridade em suas músicas e shows. Com Songs of Innocence, eu mesma passo a entender melhor o quão profundamente Dublin (positiva e negativamente) afetou o U2 e, da minha própria maneira, retorno à minha inocência adolescente.

Songs of Innocence é uma viagem no tempo que liga 2014 a 1976 (e, no meu caso, a 1993, ano em que me tornei fã da banda), que transporta ao início de tudo. É o álbum que mostra que, quando se trata de U2, ainda há muita força criativa a ser explorada. Faixas como ‘Iris’ e ‘This is Where You Can Reach Me Now’ demonstram que o U2 ainda é capaz de escrever grandes canções e mobilizar emoções simples, que falam ao adolescente crédulo que mora em cada um de nós. O próximo álbum da banda deve se chamar Songs of Experience, e ainda não tem data para ser lançado. Aguardarei ansiosamente para saber para onde ele irá me transportar.


Algumas faixas do álbum

‘Iris’

‘Volcano’

‘Raised By Wolves’

‘Cedarwood Road’

‘Sleep Like a Baby Tonight’

‘This is Where You Can Reach Me Now’

2 thoughts on ““Songs of Innocence” e o retorno à Dublin

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