Conteúdo / crítica / música

Como começar a gostar de um álbum

(To read this post in English, click here.)

Dois mil e quarto não foi o melhor ano para mim. Perdi meu pai no final de outubro e, de repente, minha vida se transformou em um turbilhão de emoções estranhas e, por vezes, conflitantes. Não havia muitas coisas nas quais podia confiar para me consolar – eu contei para apenas alguns poucos amigos sobre a morte dele; além disso, eu não achava que a maioria das pessoas à minha volta pudesse entender minha confusão e dor, já que poucas haviam de fato passado por algo semelhante com a mesma idade que eu. Meu namorado à época foi uma fortaleza de paciência, apoio e resiliência, mas o que quer que fosse que estive passando dentro de mim simplesmente não podia ser resolvido naquele momento, nem como todo amor e carinho do mundo.

Então, como em qualquer situação conflituosa em minha vida, eu recorri à música, que sempre havia sido uma parte essencial de como eu entendia o mundo e como eu me posicionava. Em alguns momentos, a música parecia um outro órgão, como algo que circulava pelo meu sangue junto com o oxigênio que me mantinha viva. Eu podia sentir a música no meu coração e nos meus ossos, tão forte e comovente que, às vezes, me paralisava. Ela era minha rocha e minha amiga, minha única companhia constante ao longo da vida.

Cerca de um mês após a morte do meu pai, o U2 lançou seu décimo-primeiro álbum de estúdio, “How to dismantle an atomic bomb”, que eu recebi com emoções conflitantes. Algumas faixas aumentaram meu ânimo imediatamente, como Vertigo e All because of you. Outras tocavam diretamente na minha perda recente – eu ainda derramo algumas lágrimas com City of blinding lights, e ainda pulo Miracle Drug e Sometimes you can’t make it on your own, já que ambas ainda são dolorosamente íntimas para mim. Outras faixas foram pouco exploradas, como One step closer e Yahweh.

O álbum claramente não teve sucesso instantâneo no meu CD player (eu tinha um desses naquela época. Carregava-o para todos os lugares, apesar de seu tamanho colossal). Depois de “All that you can’t leave behind” – outro lançamento que não conseguiu me convencer de cara de suas qualidades musicais – estava esperando que o U2 viesse com algo mais impactante, rápido e pesado. Aguardava um verdadeiro álbum de rock, mas tudo o que ouvi foi o lamento de um grupo de homens lidando com as dificuldades da meia idade (não que haja qualquer coisa de fundamentalmente errada com isso). Ele não me impactou da mesma maneira como quase todos os trabalhos do U2 haviam feito até então. Quando penso em como álbuns como “Boy”, “War” ou “Achtung, Baby” provocaram uma revolução dentro do meu cérebro adolescente, qualquer coisa depois de “Zooropa” não chega nem aos pés.

Anos depois, eu me dei conta do meu erro principal. Alguns álbuns parecem feitos sob medida para momentos específicos, tal como guias personalizados sobre como encarar nossas vidas em determinadas épocas. A outros, é necessário permitir que amadureçam, enquanto nós também estamos amadurecendo e começamos a ver as coisas de outra forma. “How to dismantle…” é um álbum dessa categoria. Foi o flerte mais lento na minha história com lançamentos do U2, um relacionamento que levou 10 anos para acontecer. Eu ainda me vejo me encantando por ele, descobrindo sua beleza velada e sua sabedoria universal cada vez que o escuto.

Algumas de suas faixas mais emotivas, às vezes muito pessoais, me fazem sentir identificação com a dor do próprio Bono ao escrever as canções do álbum, já que foi o primeiro lançamento da banda desde que seu pai, Bob Hewson, faleceu em agosto de 2001. Algumas soam como relatos e impressões de Bono sobre uma experiência que nenhum filho ou filha deseja viver (apesar de isso ser o que acontece com a maioria de nós, considerando a ordem natural das coisas). Agora, eu conseguia sentir empatia com suas letras de maneiras que eu nunca imaginei que fosse possível – de maneiras que eu nunca quis.

Em 2004, sendo eu toda emoção e sentimentos primitivos, assim como raiva intensa, após a morte do meu pai, eu me aferrei às faixas do álbum com as quais me identifiquei imediatamente. Pulei as que me faziam chorar quase até os olhos caírem, e deixei as restantes quietas, já que elas nem me diziam nada naquele momento difícil que eu estava vivendo, nem me ajudavam a sair do buraco profundo e interminável do meu luto. Eu tinha outras canções e outros álbuns para me ajudar nesta tarefa, alguns saídos da própria discografia do U2.

Hoje, ouvir “How to dismantle…” é um presente. Ele soa estimulante, novo, estranho e misterioso, como águas ainda desconhecidas que convidam exploradores aventureiros a navegarem por elas. O álbum é como um presente para mim que escondi uma década atrás, uma cápsula do tempo que deveria ser aberta apenas após meus sentimentos tão primitivos terem se transformado em compreensão e compaixão. Atualmente, eu até consigo escutar City of Blinding Lights, uma garantia de me arrancar lágrimas, sem perder completamente minha compostura. Meus olhos ainda ficam marejados, mas não choro um oceano como costumava fazer.

Isso não significa que o álbum não me afeta mais. Eu vivi minha própria versão dos estágios do luto (posso garantir que não foi nada como os livros mostram) e a música foi a única coisa constante enquanto eu passava pela minha tempestade pessoal. Eu não ignoro os poderes especialmente curativos da música, e me expus, de maneira diligente, aos incríveis efeitos de canções executadas com maestria pelo U2 ao longo dos anos para ver se conseguiria, de modo forçoso e voluntarioso, sair do meu estado angustiante. Essa abordagem nem sempre funcionou – com a morte do meu pai, outros tipos de ajuda foram necessários, de um tipo mais forte –, mas certamente tornou meus dias tristes menos difíceis, e meus dias felizes duram mais na companhia de ótima música.

How to dismantle…” é uma lição musical sobre as complexidades da vida, de perdas pessoais à pobreza, do amor entre duas pessoas ao deslumbramento com o mundo e sua vastidão. Ele fala de fé, dúvida, paciência, inadequação, envelhecer e entender onde estamos no universo. É um álbum clássico do U2 no sentido de que ele trata de todos os temas delicados que são tão caros à banda, mas é diferente de outros lançamentos, pois não segue com um tema único ao longo da maioria de suas faixas.

Ele não é um álbum conceitual, como “Zooropa” ou “No line on the horizon”. Sua compreensão é clara e accessível a todos. Apenas viva a vida, passe por bons e maus momentos, sofra algum tipo de perda e você conseguirá entender totalmente o que Bono quer dizer quando canta versos como “o que aconteceu com a beleza que havia dentro de mim?” ou “nós brigamos o tempo todo, eu e você”. Quando fala de uma conversa entre um pai moribundo e seu filho, ou quando conta as dificuldades de países em desenvolvimento, “How to dismantle…” joga luz sobre uma série de experiências pessoais ou coletivas que podem ser compartilhadas e entendidas por todos, como retratos do cotidiano tal como ele é vivido pela humanidade desde o início dos tempos. Ele é honesto e direto, como a vida real costuma ser. Ainda não é um dos meus álbuns favoritos, mas aprendi a valorizá-lo por sua simplicidade e beleza.

Após 13 álbuns de estúdio, a banda ainda tem muito a oferecer em termos de sabedoria e exploração musical. Seu último lançamento, “Songs of innocence”, é o álbum de rock que eu vinha esperando que eles lançassem há anos, e mostra a banda sob uma luz completamente nova. É uma jornada de volta às suas raízes irlandesas, ao tempo em que eles eram jovens dublinenses de 20 anos, de cara limpa, tentando deixar sua marca no cenário musical em meio à revolução dos pós-punk. O álbum tem um tema, mas ele traz algumas das lições aprendidas desde “How to dismantle…”. Suas canções são mais acessíveis que aquelas encontradas em “The unforgettable fire” ou em “October”, por exemplo, e suas letras devem gerar mais identificação entre um público mais genérico. Pode ser uma versão mais pop do U2, mas ainda assim carrega seu DNA de genialidade.

Seus membros estão se aproximando dos 60 anos, mas o U2 ainda sabe como fazer rock pesado e rápido, com um espírito de curiosidade e inovação que tantas outras bandas longevas já perderam. Seus álbuns são uma prova de sua humanidade profunda, e sua música certamente irá sobreviver à existência física de seus criadores. Dos clássicos instantâneos aos sucessos inesperados, a banda tem algo para (quase) todo mundo, e cada canção consolida ainda mais seu legado impressionante.

Esse grupo improvável da Mount Temple Comprehensive School pode não ser uma banda clássica de rock, mas eles certamente levaram o gênero a novos e revolucionários patamares. “How to dismantle…” apenas prova que eles ainda conseguem fazer rock e serem conscientes aos mesmo tempo, como eles sempre se esforçaram para ser. Afinal, como se diz popularmente, você não consegue dançar ao som de U2 (a menos que você esteja ouvindo a uma versão remix, mas isso já é outro papo).

 

One thought on “Como começar a gostar de um álbum

  1. Pingback: How to start liking an album | Please feed the journalist

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s